• Coordenador Vitor Trevisoo

Crítica sobre Arte Moderna na América Latina


Podemos dizer que a construção estética é peça fundamental na fomentação de uma identidade, seja ela de um continente, país, cidade ou até mesmo grupo social. Costumes, tradições, ritos e interesses permeiam a necessidade intrínseca do ser humano em exteriorizar sua essência e naturalmente se posicionar de maneira artística no mundo. Justamente a partir dessa necessidade a discussão sobre arte na, e da América Latina, ainda se configuram como um problema tanto para críticos de arte, artistas, curadores, educadores e consequentemente ao próprio povo latino americano.

Fica evidente na análise a respeito de toda influência dos processos de colonização europeia sobre países latino americanos, que tal fato estrutura praticamente todo debate sobre as produções e principalmente qualificações das manifestações artísticas dos países colonizados. Sobre uma perspectiva histórica, a manipulação eurocêntrica dos discursos a respeito da arte se configura como principal eixo no debate e deve-se atentar a criação de uma medida universal a partir da hierarquização, do que países europeus puderam chamar de uma arte verdadeiramente válida para a análise evolutiva do homem e suas manifestações, e arte apenas como objeto de estudo sobre culturas. Esse discurso pragmático, objetivo e tendencioso pode ser resgatado em meados do século XIX, onde a cultura nacional nos países europeus, principalmente a França, se propuseram a reafirmar uma certa soberania nacional a partir de afirmações e informações desenvolvidas e disseminadas a partir de pressuposições técnicas, teóricas e econômicas a respeito das artes presentes na Europa. Configura-se assim um discurso metafísico sobre a evolução da arte, discurso esse que se torna um sistema de dominação estético regido por aqueles países responsáveis por todos os processos de colonização na América Latina. Com isso justifica-se a influência dos processos de colonização na dificuldade do encontro justo, contextualizado e independente de uma identidade artística latino-americana.

“De que serve ter o mapa se o fim está traçado De que serve a terra à vista se o barco está parado De que serve ter a chave se a porta está aberta De que servem as palavras se a casa está deserta.” ABRUNHOSA,Pedro: Universal Music, 2007.

Exalto o trecho acima, escrito pelo compositor e músico português Pedro Abrunhosa, como metáfora ao que foi dito anteriormente. Busca-se desde de meados do século XX um desprendimento por parte dos artistas e intelectuais latino americanos aos padrões estéticos estipulados e hierarquizados pelos europeus, e uma busca identitária que resgataria as essências nativas (maias, astecas, incas e ameríndias) de cada civilização explorada e doutrinada sob esses padrões. Esse desprendimento, no entanto, ainda se torna uma barreira quase desleal no processo criativo e comercial da arte em países da América Latina, pois o discurso eurocêntrico sempre acaba norteando, e de certa forma ainda qualificando, as temáticas artísticas que se dividem entre a linguagem nativa, popular ou acadêmica europeia. Entendo que por mais válida e necessária que seja a busca e exaltação das culturas nativas no cenário artístico contemporâneo, me posiciono de maneira crítica ao modo que se formula essa exaltação, pois ao valorizar as culturas nativas automaticamente se estereotipa uma arte que nega a imposição estética europeia e assim, ao me ver, retoma de maneira subjetiva a força da “fine art” e toda essa medida universal criada pelas academias. Outra saída seria a adequação ou incorporação das influências europeias na produção artística contemporânea na América Latina, que por sua vez ainda reafirmam a hierarquia estética eurocêntrica, mas em contrapartida é melhor aceita em museus, galerias e mostras fora dos perímetros latino americanos, pois se apresenta a partir de uma visualidade mais familiar aos olhos estrangeiros que se veem interpretados nas obras, performances, instalações etc.

Está exposta então a problemática maior, por mais que busquemos o desprendimento de certos padrões, eles por serem alvos do interesse genuíno, retoma o papel de protagonista, e qualquer saída acaba resgatando os valores julgados dominantes, injustos e colonizadores. E a pergunta se faz - de que serve a busca de inspirações na arte nativa como discurso se ela sempre estará acompanhada dos discursos que ao longo da história as subjugaram como arte inferior ou manifestações de povos primitivos. É possível um povo se reafirmar esteticamente ignorando por completo aqueles que estão diretamente relacionados aos processos históricos de formulação cultural e social? Se não, de que maneira essas identidades nativas e originárias podem ser exaltadas sem haver um comparativo com os padrões colonialistas? Se sim, como essa abordagem se faz aceita como influência direta na arte dentro e fora do continente latino americano? Negar um passado, mesmo que seja de exploração, de certa forma não é negar sua identidade?

Na busca de respostas é indispensável um apanhado histórico que retome as já consagradas manifestações artísticas na América Latina que buscaram o despertar da consciência identitária do país a partir da arte. Me oriento a partir da busca criativa de uma cultura popular brasileira instaurada pelos artistas atuantes no começo do séc. XX como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti entre outros. E ao movimento muralista mexicano também do início do séc. XX liderados por Federico Cantu, Ramón Alva, José Clemente Orozco, Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros.

A modernidade brasileira pode ser entendida como um processo impositivo e obrigatório, seja no contexto histórico ou até mesmo intelectual. A proclamação da República em 1889 despertou a busca do desvinculamento estético e cultural europeu, fruto da colonização, e encaminharam como resultado único e necessário a afirmação de uma identidade que propunha uma independência artística além da política e econômica. O embate que se teve foi de que maneira a cultura brasileira, tida como a deriva, se sobressairia diante os moldes intelectuais europeus do séc. XIX e principalmente os padrões estéticos regulamentadores de um país colonizado no caso o barroco do séc. XVIII e o Neoclassicismo do séc. XIX.

A partir de uma ótica burguesa, a pauta foi uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora e ruptura com o passado, o que sacraliza a arte popular brasileira. Em meio aos conturbados contextos políticos, econômicos e sociais resultantes da República Velha (1889- 1930), controlada pelas oligarquias cafeeiras - as famílias quatrocentonas - e pela política do café com leite (1898-1930) além do capitalismo crescente no Brasil, que consolidava a república e a elite paulista, elite essa totalmente influenciada pelos padrões estéticos europeus mais tradicionais, configura-se o ambiente onde os artistas propunham uma nova arte popular brasileira e creditavam ao ambiente artístico e cultural da cidade como "a perfeita demonstração do que há em nosso meio em escultura, arquitetura, música e literatura sob o ponto de vista rigorosamente atual", como informava o Correio Paulistano, órgão do partido governista paulista, em 29 de janeiro de 1922.

Além de explicitar os desdobramentos ontológicos da arte moderna brasileira, parto para uma análise mais problematizadora, e que resgata as perguntas elaboradas no quarto parágrafo. Sendo assim atento ao fato de que essa reformulação estética brasileira do início do séc. XX parte de interesses e criações de artistas pertencentes a elite paulista, artistas que em sua maioria possuíam formação acadêmica e experiências profissionais em solo europeu, herdeiros diretos das mais variadas e renomadas vanguardas europeias.

Exemplo o poeta Oswald de Andrade estudado na Europa e impregnado do futurismo de Marinetti, Anita Malfatti que em 1914 retorna da Europa trazendo influências pós-impressionistas, ou Tarsila do Amaral que em 1920, viaja a Paris e frequenta a Academia Julian além de ter estudado na Academia de Émile Renard. Esse fato biográfico e de formação acerca dos artistas que idealizaram a arte moderna no Brasil se configura, por mais irônico que pareça, como o ponto mais frágil dessa visualidade, textualidade e intelectualidade que se diz genuinamente brasileira originária do séc. XX. Isso pois se bebeu da fonte europeia para assim se afirmarem capazes de uma construção latino-americana. Ou seja, por mais que critiquemos as imposições artísticas europeias na américa latina a criação da identidade nacional brasileira, a partir das décadas de 1920, foi totalmente embasada nas visualidades e tendências das vanguardas europeias, e o sentimento que fica é que até hoje as influências dessas visualidades norteiam a arte brasileira. Não existiu autonomia artística no Brasil. O que se teve foi uma incorporação estética europeia, por parte de artistas e intelectuais, e uma adequação de temáticas “nativas e populares” com a intenção de atender às mudanças sociais e políticas de uma república recém instaurada. O Brasil para ter “cara” de Brasil moderno precisou dos ensinamentos de como a Europa tinha “cara” de Europa moderna.

Além das fronteiras nacionais o muralismo mexicano nos esclarece sobre uma tentativa mais dinâmica, menos formalista e mais autêntica de ruptura estética colonialista. Ainda no séc. XX subsequente ao clima depressivo e caótico do fim da primeira guerra mundial, surge no México uma resistência civil com exigências radicais em busca de uma revolução social, política e econômica. Os mestiços, as classes média e baixa uniram-se contra Porfirio Díaz. Com Álvaro Obregón no poder, muitas mudanças foram implementadas, inclusive fundos para promover as artes. Num cenário revolucionário e de política intensa e participativa, encarnado de esperança o espírito nativo e a herança cultural maia e asteca foram levantes dos primeiros muralistas mexicanos. Com uma população de quase 90% analfabeta, a arte muralista mexicana se apropria de um caráter didático e pedagógico num objetivo público de alfabetização visual e histórica, acrescido a valorização dos povos nativos, figuras revolucionárias e de um povo sofrido. A arte sai do cavalete e toma os espaços públicos, antes das técnicas se percebe as temáticas sociais e revolucionárias, ao invés dos “ismos” vanguardistas nos impressionam as riquezas naturais e os costumes típicos, sem qualquer preocupação hierarquizante o muralismo mexicano de Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros entre outros, se faz presente num processo revolucionário político social e resulta em uma identidade visual que se diferenciava tanto técnica quanto intencionalmente das visualidades europeias.

Contudo abre-se duas possíveis leituras decorrentes do muralismo mexicano, o fato dessa linguagem buscar incessantemente o rompimento com as influências europeias, de maneira subjetiva, desperta naqueles artistas mexicanos que buscam expressões artísticas universalistas um certo interesse pela arte universal, e recorremos mais uma vez as vanguardas europeias, ou em segunda leitura, qual a relevância póstuma e longínqua para a arte mexicana o efeito estereotipado deixado pelos muralistas, isso pois ao se dizer que arte moderna mexicana está fadada ao muralismo, a arte mexicana após o auge do muralismo se vê presa a uma permanente releitura ou refém do que acontece no mundo, abandonando assim o caráter de ruptura e aceitando as influências externas ao invés das nativas e populares.

Percebe-se então que esse processo de reformulação, adequação, ruptura e criação de uma identidade estética/visual nacional na América Latina se desdobram em sérios problemas para as gerações futuras. E por mais justa e digna que foi essa procura por pilares históricos, narrativos e visuais onde a formação cultural de um país pode se apoiar, os resultados desse apoio abre precedentes para uma exagerada estabilidade criativa. Assim percebo uma limitação das futuras gerações a reproduzirem discursos e linguagens artísticas estereotipadas e regulamentadoras quando se fala em uma arte universal. Fato é que até hoje parte dos novos artistas da América do Sul, que almejam aceitação e visibilidade universal, se veem na humilhante e pragmática obrigação de se guiar a partir de temáticas exclusivamente nacionalistas, nativas ou populares. Obrigação essa que evidentemente é fruto de como se configurou o modernismo e seus desdobramentos na América Latina.

Em busca de uma plausível, e admito quase utópica, solução à respeito desses processos modernizantes do início do séc. XX na América Latina e suas complicações na produção artística contemporânea, a abordagem então se encaminha além da esfera artística, penetra assuntos sociológicos, psicológicos e filosóficos quando a pauta identidade, pertencimento, existência entram em discussão. Do ponto de vista social e individual, identidade remete a autenticidade, é o conjunto de elementos que determinam que tal indivíduo é único e irreplicável. Partindo para uma abordagem mais científica, a identidade ascende a um nível pessoal, remetendo à consciência que cada indivíduo tem de si mesmo. Filosoficamente, ter consciência de si próprio é um elemento fundamental para se diferenciar dos demais, apesar de existir uma identidade coletiva, que caracteriza a comunidade na qual o indivíduo se insere – vinda da família e do meio cultural, é a consciência da sua originalidade que leva uma pessoa a deixar a sua marca no mundo.

Destrinchando ainda mais as possibilidades interpretativas acerca da identidade, podemos correlacionar os modernistas brasileiros e os muralistas mexicanos numa busca ampla de uma identidade. Em ambos os cenários artísticos e culturais do séc. XX o inédito, a elevação da consciência histórica e a originalidade visual eram proposições defendidas. O conjunto de elementos que caracterizam uma comunidade ou povo, que vive em sociedade e, junto, desenvolve uma maneira própria de interagir com o mundo, formando tradições ao longo do tempo se faz nítido quando se estuda a arte moderna da América Latina. Essas formas de interação incluem pratos típicos, danças, festas populares, gírias e sotaques, modos de fazer, trajes, música e instrumentos etc.

Se tudo se mostra alinhado e aparentemente se justifica de maneira lógica e fundamental, por que a questão de identidade ainda se manifesta como problema sul-americano? Ao meu ver o alvo da busca está equivocado e me arrisco em dizer ultrapassado. Acredito que o debate que almeja uma rotulação rígida, padrão, de ruptura ao estrangeiro, metafísica e fidedigna de uma nação ou de outra, se faz inútil no contexto pós-moderno. Isso porque tais preceitos, mesmo que buscando uma segurança, vão na contramão das mudanças sociais, tecnológicas, econômicas e principalmente das presunções da arte como manifestação humana que se funde às percepções, emoções e ideias, se libertando de regras, estereótipos e uma totalidade que é maior do que a soma das partes. Num mundo globalizado, altamente tecnológico e plural, os moldes modernos e utópicos de sociedades e culturas perfeitas perdem sentido. As pessoas vivem cada vez mais de maneira individualista e não se incomodam com isso, bolhas e grupos sociais se formam constantemente, redes sociais dão a ilusão de unidade e conexão quando na realidade isolam um dos outros, a política cada vez mais polarizada e extremista mantém suas massas sob controle, a mídia por sua vez fantasia padrões perfeitos de vida, e as artes populares são resultados de uma busca frenética de lucro, visibilidade, universalidade, status que são consequências inevitáveis da descentralização dos meios de comunicação e mídias. Isso se confirma com as definições de “modernidade líquida” desenvolvidas pelo sociólogo e filósofo polonês, Zygmunt Bauman.

“Quando eu era jovem, isto é, séculos atrás, ficamos impressionados com Jean Paul Sartre, que nos disse que precisávamos um projeto de vida. Temos que selecionar um projeto de vida, temos que prosseguir passo a passo de forma consistente, ano após ano chegando cada vez mais próximo desse ideal. Agora, conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você. Nós temos grandes dificuldade em adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de vida, de uma vida inteira, é algo difícil de acreditar. A vida é dividida em episódios. Não era assim no início do século 20.” BAUMAN,Zygmunt, em entrevista para Fronteiras do Pensamento | Produção Telos Cultural. 2013

Num cenário contemporâneo e individualista os levantes identitários unificadores do modernismo do séc. XX não resultam em uma força nacional. As novas gerações não se importam tanto sobre qual comunidade ou nação se pertence e a qual movimento político se sente representado, busca-se redefinir o significado e o propósito de vida, a felicidade na vida para o que está acontecendo com uma própria pessoa, as questões de identidade, que têm um papel tremendamente importante hoje, no mundo. É preciso então a criação de uma nova identidade que acompanhe o ritmo acelerado das mudanças sociais e tecnológicas. Não se torna eficaz a cultura herdada, pois a herança nesse processo globalizado pode impedir o direcionamento da vida contemporânea. Arte e indivíduo não só precisam fazer essa autocrítica, mas também tem que passar toda a sua vida redefinindo as suas identidades.

Porque numa realidade fluída os comparativos e as definições de bom, mal, certo, errado, regional, internacional, erudito e popular se transformam a cada clique. Coisas entram na moda diariamente, com a mesma intensidade e velocidade que saem, e com a arte não é diferente.

Portanto na conclusão que formulo, o desafio da arte latino-americana na atualidade, se mostra ofensivo ao passado, mas quando discutido e contextualizado se faz necessário, pois sem a ruptura dos ideias intelectuais e estéticos modernistas do séc. XX, se concretiza a desilusão e a contrapartida do que o mundo contemporâneo busca. Nasce aí a dificuldade ainda vigente nos processos criativos dos artistas da América Latina, onde alguns ainda presos às temáticas populares, termo forjado no início do séc. XX, outros lutando para se enquadrar as produções europeias e norte americanas, esses buscando uma universalidade e projeção econômica diante uma sociedade de consumo, e por fim os que compreendo como aptos à competitividade e a fluidez identitária contemporânea, aqueles que correm no mesmo sentido do seu tempo, sem negar uma autenticidade, experimentando o novo, explorando novas tecnologias, incorporando temáticas abrangentes, cunhando discursos agregadores e não excludentes, se aceitando como personagem mutável, anti narcísico, refutando realidades não mais vividas e análogas de uma aceitação do mercado, e principalmente não se provendo apenas de conceitos pré definidos como medida estética universal, mesmo que essa medida seja formada na própria nação. Evidente que barreiras políticas, ideológicas e de mercado impedem a proliferação de artistas com essas aptidões, tem-se assim a necessidade de um cenário mais ativista para uma nova formulação cultural que possibilite e resgate assim o caráter de ruptura e de eterno devir da arte. A arte precisa voltar a respirar sem ajuda de aparelhos conceituais, limitantes, regulamentadores, políticos e econômicos, sejam eles nativos, modernos, estrangeiros ou contemporâneos.

#arte #artemoderna #desenho #americalatina #latina #usp #belasartes

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